USO DE LEVEDURAS AUTÓCTONES NA DENOMINAÇÃO DE ORIGEM ALTOS DE PINTO BANDEIRA: INOVAÇÃO E IDENTIDADE REGIONAL
Espumante; levedura; autóctone; Saccharomyces cerevisiae; terroir.
A Denominação de Origem Altos de Pinto Bandeira (Serra Gaúcha, Rio Grande do Sul, Brasil) é a única DO para espumantes do novo mundo. A busca pela qualidade e tipicidade são as diretrizes deste terroir, que assim como em outros, valoriza as interações entre o ambiente físico e biológico. Assim, surge a questão, porque não utilizar uma cepa de levedura própria deste terroir? As leveduras são fungos microscópicos que estão naturalmente nas cascas das uvas, elas realizam a fermentação pela conversão dos açúcares em etanol, e formam outros compostos do metabolismo secundário, como ésteres, que enriquecem as características sensoriais dos vinhos e espumantes. Estudos anteriores identificaram e selecionaram populações de leveduras, nas principais regiões produtoras da Serra Gaúcha. Foram selecionadas espécies autóctones com perfil para resistir e conduzir fermentações em condições mais restritas, como para espumantes. O objetivo deste estudo é explorar a multiplicidade natural das populações de leveduras, bem como a viabilidade fermentativa, com o uso de fermentação espontânea no vinho base, e fermentação com as leveduras autóctones, para o espumante. Com a elaboração do espumante pelo método tradicional, as leveduras autóctones selecionadas são da estirpe Saccharomyces cerevisiae e apresentam condições de realçar a tipicidade, melhorando os aromas e sem intercorrências fermentativas. A partir de um mosto limpo de uvas Chardonnay, ocorreu fermentação do vinho base de forma espontânea e fermentação com uma levedura controle comercial. Para a elaboração do espumante, os dois vinhos base foram submetidos a fermentação com levedura autóctone (38APB12) e a mesma levedura controle comercial. Todos os tratamentos receberam os mesmos processos e aditivos, e permaneceram 12 meses sobre as borras. Após foram submetidos à remuage e dégorgement, sem adição de licor de expedição. Este é o primeiro estudo na região que propõe o uso de levedura autóctone para espumantes, portanto, de grande importância, gerando conhecimento para as vinícolas e confiança aos enólogos. Os espumantes foram avaliados em análise sensorial, às cegas, por um grupo de 21 degustadores experientes. Também foram realizadas análises físico-químicas e de compostos voláteis. A estatística apresentou diferenças significativas entre em alguns compostos. No entanto, na análise sensorial as percepções foram bem semelhantes, sem grande oscilação que comprometesse a qualidade dos espumantes. As notas de avaliação foram ligeiramente mais altas para os espumantes em que o vinho base fermentou de forma espontânea e houve inoculação de levedura comercial na tomada de espuma. Portanto, realizar a fermentação espontânea em vinho base, em ambiente vinícola controlado é uma técnica inovadora que pode trazer benefícios aos espumantes. Assim como, a fermentação em condições e técnicas naturais, como o uso de leveduras autóctones, corrobora com a imagem da região como denominação de origem de espumantes de alta qualidade, de acordo com padrões sensoriais estabelecidos, valorizando tipicidade local.